Tuesday, October 31, 2017

A Mulher e o Rato

Em uma pequena casa vivia uma mulher que aparentava ter 60 anos ou mais. Costumeiramente ela saía todos os dias pela manhã e caminhava por diversos quarteirões da cidade a pé porque não tinha dinheiro para pagar uma condução, mas, à noite, sempre com o semblante triste ela retornava.  A porta principal da casa dava direto na sala onde o destaque estava num quadro emoldurado contendo a figura de uma menina e uma mulher entre olhando-se. 
A visão do quadro era a única coisa agradável que os olhos podiam ver meio aquelas paredes decadentes onde o reboco envelhecido soltava-se. A  cor também havia desaparecida quase que, totalmente pelo tempo.  A mulher chegava sempre da rua trazendo sobre seu ombro um saco velho cheio de quinquilharias, mesmo assim, aparentemente exausta, a admiração dela naquela imagem parecia levá-la para um lugar mágico. Onde talvez, só ela conhecia. Observar a beleza contida nele enchia-lhe os olhos d´água. Depois as lágrimas eram enxugadas com sua mão enrugada, suja, coberta por uma luva de lã velha e esburacada, onde os dedos ficavam à mostra. Após um breve momento ali, ela se dirigia para outro cômodo da casa.  
O cansaço era visível no corpo da mulher que preenchia apenas um lado da cama. Porém, ela não estava sozinha. Na casa, entre as frestas, também vivia um hospede secreto. De hábitos noturnos. Ele. O rato. Saia de sua toca para passear pelos cantos da casa. Ele era um rato tocador de flauta doce. Às vezes ele se descuidava e alguma caia pelo chão. O barulho fazia a mulher acordar. Então prontamente ele pegava sua flauta e começa a tocar. A música era tão boa aos ouvidos que a mulher voltava a dormir logo em seguida. 
Um dia, após outra rotina diária, a mulher recolheu-se em sua cama mais cedo. Só que ela demorou a pegar no sono. E, não demorou muito um ruído veio da cozinha. Com medo de que alguém estivesse invadido sua casa, ela fingiu estar dormindo. O rato, como era de costume, pensou que havia despertado a mulher com sua desordem. Nervoso, o rato correu para o quarto dela ficando de prontidão ao lado da cama. Ele pegou a pequena flauta e começou a tocar.   
Ainda deitada na cama, a mulher abriu os olhos. Ela ficou por um tempo ouvindo atentamente a música do pequeno flautista. Pela primeira vez ela não achou que estivesse sonhando, pois estava acordada de verdade. Subitamente a mulher levantou-se da cama e flagrou o rato. A música cessou imediatamente. O rato assustou-se. Mas não tentou fugir. Ela abriu um sorriso e disse-lhe: Toque. Gosto de sua música. Ela encanta. Ela me faz feliz. Ela me faz sonhar. Ela me faz esquecer que essa vida é tão dura. E parece que você não terá outra plateia além de mim. A mulher dá uma piscadela para o rato e volta a deitar-se em sua cama.        

Sunday, January 29, 2017

O dinheiro não salva ninguém! Mas com certeza nos deixa menos impotentes. 

Alguém disse-me: Você é uma mulher que escreve como um homem para mulheres . Então eu respondi: Não, eu não sou uma mulher que escreve como um homem para mulheres. Eu sou um ser humano que escreve para outros seres humanos.